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quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Infinity In The Palm Of The Hand


"To see a World in a Grain of Sand
And a Heaven in a Wild Flower,
Hold Infinity in the palm of your hand 
And Eternity in an hour.

A Robin Redbreast in a Cage
Puts all Heaven in a Rage.
A dove house fill’d with doves and pigeons
Shudders Hell thro’ all its regions.
A Dog starv’d at his Master’s Gate
Predicts the ruin of the State.
A Horse misus’d upon the Road
Calls to Heaven for Human blood.
Each outcry of the hunted Hare
A fiber from the Brain does tear.

He who shall train the Horse to War
Shall never pass the Polar Bar.
The Beggar’s Dog and Widow’s Cat,
Feed them and thou wilt grow fat.
The Gnat that sings his Summer song 
Poison gets from Slander’s tongue.
The poison of the Snake and Newt
Is the sweat of Envy’s Foot.

A truth that’s told with bad intent
Beats all the Lies you can invent.
It is right it should be so;
Man was made for Joy and Woe;
And when this we rightly know
Thro’ the World we safely go.

Every Night and every Morn
Some to Misery are Born.
Every Morn and every Night
Some are Born to sweet delight.
Some are Born to sweet delight,
Some are Born to Endless Night. "
William Blake

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Destruição

"Os amantes se amam cruelmente
E com se amarem tanto não se vêem:
Um se beija no outro, reflectido.
Dois amantes que são? Dois inimigos.

Amantes são meninos estragados
Pelo mimo de amar: e não percebem
Quanto se pulverizam no enlaçar-se,
E como o que era mundo volve a nada.

Nada, ninguém. Amor, puro fantasma
Que os passeia de leve, assim a cobra
Se imprime na lembrança do seu trilho.

E eles quedam mordidos para sempre.
Deixaram de existir, mas o existido
Continua a doer eternamente."

Carlos Drummond de Andrade

Amor - Pois Que É Palavra Essencial

"Amor - pois que é palavra essencial
comece esta canção e toda a envolva.
Amor guie o meu verso, e enquanto o guia,
reúna alma e desejo, membro e vulva.

Quem ousará dizer que ele é só alma?
Quem não sente no corpo a alma expandir-se
até desabrochar em puro grito
de orgasmo, num instante de infinito?

O corpo noutro corpo entrelaçado,
fundido, dissolvido, volta à origem
dos seres, que Platão viu completados:
é um, perfeito em dois; são dois em um.

Integração na cama ou já no cosmo?
Onde termina o quarto e chega aos astros?
Que força em nossos flancos nos transporta
a essa extrema região, etérea, eterna?

Ao delicioso toque do clitóris,
já tudo se transforma, num relâmpago.
Em pequenino ponto desse corpo,
a fonte, o fogo, o mel se concentraram.

Vai a penetração rompendo nuvens
e devassando sóis tão fulgurantes
que nunca a vista humana os suportara,
mas, varado de luz, o coito segue.

E prossegue e se espraia de tal sorte
que, além de nós, além da prórpia vida,
como ativa abstração que se faz carne,
a idéia de gozar está gozando.

E num sofrer de gozo entre palavras,
menos que isto, sons, arquejos, ais,
um só espasmo em nós atinge o climax:
é quando o amor morre de amor, divino.

Quantas vezes morremos um no outro,
no úmido subterrâneo da vagina,
nessa morte mais suave do que o sono:
a pausa dos sentidos, satisfeita.

Então a paz se instaura. A paz dos deuses,
estendidos na cama, qual estátuas
vestidas de suor, agradecendo
o que a um deus acrescenta o amor terrestre."

Carlos Drummond de Andrade

Ausência

"Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim."
Carlos Drummond de Andrade

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Falam de Nós na Cidade

"Falam de nós na cidade
Porque dizem que te ofereço
Coisas de que não disponho,
Como se fosse maldade
Dar-te os olhos para berço
E os cabelos para sonho.

Dizem que quando eu me deito
Contigo, uma lua negra
Vem fazer o casamento.
Como se fosse defeito
Saber que a vida não chega
Para o nosso sentimento.

Lá porque o nosso passeio
É uma fuga das grades
Que em cada gesto partimos.
Dão um nome muito feio
Àquelas intimidades
Em que ficando, fugimos.

Dizem que este desatino
É a maldita lembrança
Do pecado original?
Eu só sei que isto é destino
E mesmo que seja herança
É legado natural.

Porque é virtude tocar-te
Tu és mais puro que um deus
Purificas o que afagas.
Meu amor só de afagar-te
A minha mão chega aos céus
E sou mais forte que as pragas."

Natália Correia

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Saudade

"Saudade é solidão acompanhada,
é quando o amor ainda não foi embora,
mas o amado já...

Saudade é amar um passado que ainda não passou,
é recusar um presente que nos machuca,
é não ver o futuro que nos convida...

Saudade é sentir que existe o que não existe mais...

Saudade é o inferno dos que perderam,
é a dor dos que ficaram para trás,
é o gosto de morte na boca dos que continuam...

Só uma pessoa no mundo deseja sentir saudade:
aquela que nunca amou.

E esse é o maior dos sofrimentos:
não ter por quem sentir saudades,
passar pela vida e não viver.

O maior dos sofrimentos é nunca ter sofrido."

Pablo Neruda

sábado, 23 de julho de 2011

Silêncios e Espantos

"Em Portalegre, cidade
Do Alto Alentejo, cercada
De serras, ventos, penhascos, oliveiras e sobreiros
Morei numa casa velha,
À qual quis como se fora
Feita para eu Morar nela...
Cheia dos maus e bons cheiros
Das casas que têm história,
Cheia da ténue, mas viva, obsidiante memória
De antigas gentes e traças,
Cheia de sol nas vidraças
E de escuro nos recantos,
Cheia de medo e sossego,
De silêncios e de espantos,
- Quis-lhe bem como se fora
Tão feita ao gosto de outrora
Como as do meu aconchego.
Em Portalegre, cidade
Do Alto Alentejo, cercada
De montes e de oliveiras
Ao vento suão queimada
( Lá vem o vento suão!,
Que enche o sono de pavores,
Faz febre, esfarela os ossos,
E atira aos desesperados
A corda com que se enforcam
Na trave de algum desvão...)
Em Portalegre, dizia,
Cidade onde então sofria
Coisas que terei pudor
De contar seja a quem fôr,
Na tal casa tosca e bela
À qual quis como se fora
Feita para eu morar nela,
Tinha, então,
Por única diversão,
Uma pequena varanda
Diante de uma janela
Toda aberta ao sol que abrasa,
Ao frio que tosse e gela
E ao vento que anda, desanda,
E sarabanda, e ciranda
Derredor da minha casa,
Em Portalegre, cidade
Do Alto Alentejo, cercada
De serras, ventos, penhascos e sobreiros
Era uma bela varanda,
Naquela bela janela!
Serras deitadas nas nuvens,
Vagas e azuis da distância,
Azuis, cinzentas, lilases,
Já roxas quando mais perto,
Campos verdes e Amarelos,
Salpicados de Oliveiras,
E que o frio, ao vir, despia,
Rasava, unia
Num mesmo ar de deserto
Ou de longínquas geleiras,
Céus que lá em cima, estrelados,
Boiando em lua, ou fechados
Nos seus turbilhões de trevas,
Pareciam engolir-me
Quando, fitando-os suspenso
Daquele silêncio imenso,
Sentia o chão a fugir-me,
- Se abriam diante dela
Daquela
Bela
Varanda
Daquela
Minha
Janela,
Em Portalegre, cidade
Do Alto Alentejo, cercada
De serras, ventos, penhascos, oliveiras e sobreiros
Na casa em que morei, velha,
Cheia dos maus e bons cheiros
Das casas que têm história,
Cheia da ténue, mas viva, obsidiante memória
De antigas gentes e traças,
Cheia de sol nas vidraças
E de escuro nos recantos,
Cheia de medo e sossego,
De silêncios e de espantos,
À qual quis como se fora
Tão feita ao gosto de outrora
Como as do meu aconchego...
Ora agora,
?Que havia o vento suão
Que enche o sono de pavores,
Faz febre, esfarela os ossos,
Dói nos peitos sufocados,
E atira aos desesperados
A corda com que se enforcam
Na trave de algum desvão,
Que havia o vento suão
De se lembrar de fazer?
Em Portalegre, dizia,
Cidade onde então sofria
Coisas que terei pudor
De contar seja a quem for,
?Que havia o vento suão
De fazer,
Senão trazer
Àquela
Minha
Varanda
Daquela
Minha
Janela,
O documento maior
De que Deus
É protector
Dos seus
Que mais faz sofrer?
Lá num craveiro, que eu tinha,
Onde uma cepa cansada
Mal dava cravos sem vida,
Poisou qualquer sementinha
Que o vento que anda, desanda,
E sarabanda, e ciranda,
Achara no ar perdida,
Errando entre terra e céus...,

E, louvado seja Deus!,
Eis que uma folha miudinha
Rompeu, cresceu, recortada,
Furando a cepa cansada
Que dava cravos sem vida
Naquela
Bela
Varanda
Daquela
Minha
Janela
Da tal casa tosca e bela
Á qual quis como se fora
Feita para eu morar nela...
?Como é que o vento suão
Que enche o sono de pavores,
Faz febre, esfarela os ossos,
Dói nos peitos sufocados,
E atira aos desesperados
A corda com que se enforcam
Na trave de algum desvão,
Me trouxe a mim que, dizia,
Em Portalegre sofria
Coisas que terei pudor
De contar seja a quem for,
Me trouxe a mim essa esmola,
Esse pedido de paz
Dum Deus que fere ... e consola
Com o próprio mal que faz?
Coisas que terei pudor
De contar seja a quem for
Me davam então tal vida
Em Portalegre; cidade
Do Alto Alentejo, cercada
De serras, ventos, penhascos, oliveiras e sobreiros,
Me davam então tal vida
- Não vivida!, sim morrida
No tédio e no desespero,
No espanto e na solidão,
Que a corda dos derradeiros
Desejos dos desgraçados
Por noites do tal suão
Já varias vezes tentara
Meus dedos verdes suados...
Senão quando o amor de Deus
Ao vento que anda, desanda,
E sarabanda, e ciranda,
Confia uma sementinha
Perdida entre terra e céus,
E o vento a trás à varanda
Daquela
Minha
Janela
Da tal casa tôsca e bela
À qual quis como se fôra
Feita para eu morar nela!
Lá no craveiro que eu tinha,
Onde uma cepa cansada
Mal dava cravos sem vida,
Nasceu essa acáciazinha
Que depois foi transplantada
E cresceu; dom do meu Deus!,
Aos pés lá da estranha casa
Do largo do cemitério,
Frente aos ciprestes que em frente
Mostram os céus,
Como dedos apontados
De gigantes enterrados...
Quem desespera dos homens,
Se a alma lhe não secou,
A tudo transfere a esperança
Que a humanidade frustrou:
E é capaz de amar as plantas,
De esperar nos animais,
De humanizar coisas brutas,
E ter criancices tais,
Tais e tantas!,
Que será bom ter pudor
De as contar seja a quem for!
O amor, a amizade, e quantos
Mais sonhos de oiro eu sonhara,
Bens deste mundo!, que o mundo
Me levara,
De tal maneira me tinham,
Ao fugir-me,
Deixando só, nulo, vácuos,
A mim que tanto esperava
Ser fiel,
E forte,
E firme,
Que não era mais que morte
A vida que então vivia,
Auto-cadáver...
E era então que sucedia
Que em Portalegre, cidade
Do Alto Alentejo, cercada
De serras, ventos, penhascos, oliveiras e sobreiros
Aos pés lá da casa velha
Cheia dos maus e bons cheiros
Das casa que têm história,
Cheia da ténue, mas viva, obsidiante memória
De antigas gentes e traças,
Cheia de sol nas vidraças
E de escuro nos recantos,
Cheia de medo e sossego,
De silêncios e de espantos,
- A minha acácia crescia.
Vento suão!, obrigado...
Pela doce companhia
Que em teu hálito empestado
Sem eu sonhar, me chegara!
E a cada raminho novo
Que a tenra acácia deitava,
Será loucura!..., mas era
Uma alegria
Na longa e negra apatia
Daquela miséria extrema
Em que vivia,
E vivera,
Como se fizera um poema,
Ou se um filho me nascera."
José Régio

domingo, 10 de julho de 2011

After Some Time You Learn

"After some time you learn the difference,
The subtle difference between holding a hand and chaining a soul.
And you learn that love doesn't mean leaning,
And company doesn't always mean security.
And you begin to learn that kisses aren't contracts,
And presents aren't promises.

And you begin to accept your defeats,
With your head up and your eyes ahead,
With the grace of a woman, not the grief of a child.
And you learn to build all your roads on today,
Because tomorrow's ground is too uncertain for plans,
And futures have a way of falling down in mid-flight.



After a while you learn, that even the sun burns if you get too much,
And learn that it doesn't matter how much you do care about,
Some people simply don't care at all.
And you accept that it doesn't matter how good a person is,
She will hurt you once in a while,
And you need to forgive her for that.

You learn that talking can relieve emotional pain. 
You discover that it takes several years to build a relationship based on confidence,
And just a few seconds to destroy it.
And that you can do something just in an instant,
And which you will regret for the rest of your life.
You learn that the true friendships, 

Continue to grow even from miles away. 
And that what matters isn't what you have in your life,
But who you have in your life.
And that good friends are the family which allows us to choose.
You learn that we don't have to switch our friends,
If we understand that friends can also change.

You realize that you and your best friend can do do anything, or nothing,
And have good moments together.
You discover that the people who you most care about in your life,
Are taken from you so quickly,
So we must always leave the people who we care about with lovely words,
It may be the last time we see them.

You learn that the circumstances and the environment have influence upon us, 
But we are responsible for ourselves. 
You start to learn that you should not compare yourself with others,
But with the best you can be.
You discover that it takes a long time to become the person you wish to be, 
And that the time is short. 

You learn that it doesn't matter where you have reached,
But where you are going to.
But if you don't know where you are going to, anywhere will do.
You learn that either you control your acts, or they shall control you.
And that to be flexible doesn't mean to be weak or not to have personality,
Because it doesn't matter how delicate and fragile the situation is,
There are always two sides.

You learn that heroes are those who did what was necessary to be done,
Facing the consequences.
You learn that patience demands a lot of practice.
You discover that sometimes, the person who you most expect to be kicked by when you fall,
Is one of the few who will help you to stand up.

You learn that maturity has more to do with the kinds of experiences you had
And what you have learned from them,
Than how many birthdays you have celebrated.
You learn that there are more from you parents inside you than you thought.

You learn that we shall never tell a child that dreams are silly,
Very few things are so humiliating,
And it would be a tragedy if she believed in it.
You learn that when you are angry, you have the right to be angry,
But this doesn't give you the right to be cruel.
You discover that only because someone doesn't love you the way you would like her to,
It doesn't mean that this person doesn't love you the most she can,
Because there are people who love us, but just don't know how to show or live that.

You learn that sometimes it isn't enough being forgiven by someone,
Sometimes you have to learn how to forgive yourself.
You learn that with the same harshness you judge,
Some day you will be condemned.
You learn that it doesn't matter in how many pieces your heart has been broken,
The world doesn't stop for you to fix it.

You learn that time isn't something you can turn back,
Therefore you must plant your own garden and decorate your own soul,
Instead of waiting for someone to bring you flowers.
And you learn that you really can endure.
You really are strong.

And you can go so farther than you thought you could go.
And that life really has a value.
And you have value within the life.
And that our gifts are betrayers,
And make us lose
The good we could conquer,
If it wasn't for the fear of trying."

William Shakespeare

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Invictus

"Out of the night that covers me,
Black as the Pit from pole to pole,
I thank whatever gods may be
For my unconquerable soul.

In the fell clutch of circumstance
I have not winced nor cried aloud.
Under the bludgeonings of chance
My head is bloody, but unbowed.

Beyond this place of wrath and tears
Looms but the Horror of the shade,
And yet the menace of the years
Finds, and shall find, me unafraid.

It matters not how strait the gate,
How charged with punishments the scroll.
I am the master of my fate:
I am the captain of my soul."

William Ernest Henley

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Bíblia Científica

Sabe porquê que os dinossauros se extinguiram? E porquê que a actividade vulcânica é tão imprevisível? Ou como se constrói um universo? Ou quem realmente descobriu o átomo?
A resposta a estas e a muitas outras perguntas poderá encontrá-las em “Breve História de Quase Tudo” (“A Short History of Nearly Everything” no original) de Bill Bryson, uma pequena bíblia científica que aborda de uma forma original e divertida todos os grandes temas da ciência e a história inerente aos mesmos.
Trata-se dum livro encantador e viciante, que prende o leitor da primeira á última linha.
Mais interessante do que compreender como se forma o universo, ou como funcionam as células, é apercebermo-nos - a cada novo dado - do quão diminutos somos, no meio dum planeta acolhedor, com muitos mais anos de vida e muitíssimo mais actividade do que a nossa (quase) imperceptível (e acidental?) presença.
É também inquisitivo (para dizer o mínimo) perceber que a espécie com maior capacidade para entender e intervir no meio onde se insere é também aquela que mais contribui para a sua destruição.
O mais extraordinário deste livro é que mesmo depois de todas aquelas perguntas - que no fundo sempre quisemos saber - serem respondidas, percebemos que ainda existem infinitamente mais questões por colocar.
Um reflexo brilhante sobre a ciência e a sua história que diz respeito a todos nós e ao mundo em que vivemos.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

As Minhas Fugas das Prisões de Veneza por Giacomo Casanova: Excertos

“… é uma solidão que desespera; mas só se pode sabê-lo depois de se passar pela experiência. A partir de então compreendi como se enganam aqueles que atribuem ao espírito do homem uma certa força: tal força é apenas relativa e o homem que a si mesmo se estudasse com rigor encontraria em si somente debilidade. Compreendi que, embora só raramente aconteça que o homem atinja a loucura, é contudo verdade que tal coisa não é difícil. O nosso juízo é como a pólvora, que sendo embora fácil de inflamar só se inflama quando se lhe pega o fogo; ou como um copo que nunca se partirá a não ser que o partam.”

“ Um homem que dorme tranquilamente na prisão, não está na prisão durante o seu doce sono, e o escravo enquanto dorme não sabe que o é, tal como os reis enquanto dormem não governam. Há-de portanto considerar aquele que o acorda como um carrasco que vem privá-lo da sua liberdade e mergulhá-lo de novo na miséria. Acrescente-se que vulgarmente o prisioneiro que dorme sonha que está em liberdade e que essa ilusão lhe faz as vezes da realidade.”

“ Os espíritos fortes que dizem que a oração não serve para coisa nenhuma, não sabem o que dizem: sei que depois de rezar a Deus me achava sempre com mais força. Mais não é preciso para reconhecer a utilidade da oração. Há quem pretenda que esse aumento de força é um efeito natural da matéria tornada mais vigorosa pela confiança que ela obteve por via da oração, e que tal acontece sem que Deus tome parte no processo. Respondo que, uma vez que se admite Deus, Deus toma parte em todas as coisas. Os que têm uma religião dispõem de muitos recursos que os incrédulos não têm. Os primeiros compreendem pouco do que se passa, mas os segundos não compreendem absolutamente nada.”

“… a verdade está escondida num poço, mas quando lhe vem o capricho de se mostrar, toda a gente fica surpreendida e fixa sobre ela os olhares, porque surge completamente nua, é mulher e é bela.”

“O homem erra ao atribuir a si mesmo mérito por aquilo que fez de bom e erra duplamente ao caluniar a fortuna pondo na conta dela os males que lhe acontecem. A minha história mostrará que tomos somos imbecis quando procuramos longe de nós as causas de tudo o que de sinistro nos acontece: directa ou indirectamente, encontrá-las-emos todos em nós mesmos.”

“O maior alívio que pode ter um homem atormentado é sentir a esperança de em breve sair do tormento. Contempla o feliz instante em que verá o fim da sua desgraça; persuade-se de que tal instante não demorará muito a vir e seria capaz de tudo fazer para saber a hora precisa em que esse instante chegará. Mas não há ninguém que possa saber em que instante se dará um facto que depende da vontade de um outro, a menos que lho haja dito esse outro. Porém, o homem que se tornou impaciente e cujas forças se foram esgotando acaba por acreditar que é possível, por algum meio oculto, descobrir o dito momento. Deus, diz ele, tem que saber quando chegará esse momento, e Deus pode permitir que a hora desse instante me seja revelada por um sortilégio. Logo, que o curioso faz este raciocínio, não hesita em consultar a fortuna, disposto ou não a julgar infalível tudo o que esta possa dizer-lhe.”

quarta-feira, 25 de maio de 2011

A Água

Ainda no tema Água deixo um poema escandaloso (e algo obsceno, não recomendável a pessoas mais susceptíveis de se sentirem melindradas) desse controverso poeta de nome Manuel Maria Barbosa du Bocage que descreve como ninguém a universalidade da água:

"A Água"

“Meus senhores eu sou a água
que lava a cara, que lava os olhos
que lava a rata e os entrefolhos
que lava a nabiça e os agriões
que lava a piça e os colhões
que lava as damas e o que está vago
pois lava as mamas e por onde cago.

Meus senhores aqui está a água
que rega a salsa e o rabanete
que lava a língua a quem faz minete
que lava o chibo mesmo da raspa
tira o cheiro a bacalhau rasca
que bebe o homem, que bebe o cão
que lava a cona e o berbigão.

Meus senhores aqui está a água
que lava os olhos e os grelinhos
que lava a cona e os paninhos
que lava o sangue das grandes lutas
que lava sérias e lava putas
apaga o lume e o borralho
e que lava as guelras ao caralho

Meus senhores aqui está a água
que rega rosas e manjericos
que lava o bidé, que lava penicos
tira mau cheiro das algibeiras
dá de beber ás fressureiras
lava a tromba a qualquer fantoche e
lava a boca depois de um broche.”

Bocage (15/09/1765 - 21/12/1805)

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Olhares Sussurrados I

Num lugar solarengo -

Que escalda -

Ela também existe,

Ateando com ardor

Tudo o que toca,

Até as chamas se propagarem.

Talvez mais disfarçada

Ou até mesmo escondida,

Mas sempre presente.

É comum a homens e deuses:

Ninguém lhe escapa,

Pois assalta os desprevenidos

Nos momentos de lucidez.


O sossego do olhar

Contempla a admiração

De quem passa pela estrada

E se perde na canção,

Que atravessa as paredes da casa.

Num colorido vibrante -

Que desperta a atenção

De quem segue na calçada -

Está viva a memória

Do herói dum povo forte,

Que lutou até à morte

Pelo seu nobre ideal.


A placidez da paisagem

Traz à memória aventuras

De histórias passadas

No azul ondulante,

Onde se quedam navios

Encalhados pelo destino,

Condenados a permanência forçada

Numa terra de vento,

Na cidade que dá nome

À menina do mar.


Meninos de terra

Meninos de vento

Meninos feitos de força -

Aquela força de quem não conhece o amanhã.

O engenho nasceu da necessidade

E a cada novo querer,

Há mil portas que se abrem na mente

E olhos que vêem o mundo duma nova maneira -

Aquela maneira que é servente dos propósitos da vontade.

Meninos feitos de força -

Aquela força de quem sabe viver com pouco,

Porque para viver basta

A liberdade na mão

E o sorriso no olhar.


Quem manda é ela,

Neste vale limpo

Em que invade a terra.

Apenas ela decide

Se dá luz a estes seres

Ou os deixa secar em pavor.

Ela é escassa e vadia:

Nem sempre aparece

Quando a chamam;

Define a rota

Que decide tomar,

Alheia a tudo o que atravessa.

Mas espelha em si

Cada testemunha

Que a vê passar.


Fotografia: Vanda Marques

Texto: Natália Costa

terça-feira, 3 de maio de 2011

A Verdadeira Dimensão

Este livro do músico e poeta cabo-verdiano Vasco Martins é uma verdadeira relíquia, é das melhores coisas que já tive o prazer de ler.
Trata-se dum livro em prosa carregado de palavras e frases poéticas, sobre a vida do homem cabo-verdiano, mas, no fundo, sobre a vida de cada um de nós: a dicotomia mar/terra (bastante característico de ilhéus e de gentes de países costeiros), a solidão, a velhice, a amizade, o desejo, a partida, a saudade, a ligação aos elementos, o sentido, a verdade.
É uma obra que abrange o Homem com todos os seus dilemas, medos e preocupações interiores duma maneira fluida e apaixonante.
Recomendo vivamente a leitura desta pérola sobre a verdadeira dimensão do Homem.
Deixo-vos alguns excertos:

O entardecer existe em qualquer parte do mundo, mas é na ilha que de facto existe o repouso das coisas vivas e das coisas mortas. No entardecer da ilha, espera-se calmamente pela brisa, pela noite.

(…) a morte não me faz medo. Há muito aprendi a viver lado a lado com ela, as noites são solitariamente longas. A angústia de existir já não me atormenta, porque a angústia de existir é sobretudo o medo incomensurável da morte. Mas ao envelhecermos a natureza trabalha o pensamento e as células para aceitarmos as coisas tal como elas são. O homem tem medo da morte desde o dia em que acreditou que poderia haver outro mundo, e no fundo sabe que esse mundo não existe, nunca existiu.

Não me importo que partas, mas tenho medo que tu o faças sem preparação nenhuma, sem saberes o que irás encontrar nesses caminhos longínquos e imprecisos. Deves partir se é essa a tua necessidade interior. Tenho medo de começares a ver o mundo como eles querem que tu o vejas, e que percas essa sensibilidade ingénua que trazes contigo tão naturalmente, que percas o sentido de observar o voo do passarão. Lembra-te sempre do voo do passarão, ele há-de ajudar-te nos momentos difíceis da tua vida.

(…) era o seu riso cristalino que o endoidecia mais, um riso de vida.

(…) o que para lá existe talvez não seja o que ensinei, talvez não exista nos livros. Há outras coisas mais, aprenderás a vivê-las e compreendê-las, estou seguro disso. O mundo está em ti mesmo.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

O Retrato de Dorian Gray Sem Censura

A todos nós que adoramos esse génio da literatura que é Oscar Wilde, parece que vamos ter de reler uma das suas maiores obras:
http://www.publico.pt/Cultura/o-retrato-de-dorian-gray-de-oscar-wilde-pela-primeira-vez-sem-censura_1491954

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Diário de Bordo

"O que nós vemos das coisas são as coisas.
Porque veríamos nós uma coisa se houvesse outra?
Porque é que ver e ouvir seria iludirmo-nos
Se ver e ouvir são ver e ouvir?

O essencial é saber ver,
Saber ver sem estar a pensar,
Saber ver quando se vê,
E nem pensar quando se vê,
Nem ver quando se pensa.

Mas isso (triste de nós que trazemos a alma vestida!),
Isso exige um estudo profundo,
Uma aprendizagem de desaprender
E uma sequestração na liberdade daquele convento
De que os poetas dizem que as estrelas são as freiras eternas
E as flores as penitentes convictas de um só dia,
Mas onde afinal as estrelas não são senão estrelas
Nem as flores senão flores,
Sendo por isso que lhes chamamos estrelas e flores."

Alberto Caeiro

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Desobediência Civil

“Desobediência Civil” de Henry David Thoreau, entre outras coisas influenciou o pensamento político e as acções de Tolstoi, Gandhi e Luther King:

“O Estado nunca confronta intencionalmente o sentimento intelectual ou moral de um homem, mas apenas o seu corpo, os seus sentidos. Ele não é dotado de génio superior ou de honestidade, apenas de mais força física. Eu não nasci para ser coagido. Quero respirar da forma que eu mesmo escolher.”
“No meu modo de ver quando sementes de carvalho e de castanheira caem lado a lado, uma delas não se retrai para dar vez à outra; pelo contrário, cada uma segue as suas próprias leis, e brotam, crescem e florescem da melhor maneira possível, até que uma por acaso acaba superando e destruindo a outra. Se uma planta não pode viver de acordo com a sua natureza, então ela morre; o mesmo acontece com um homem.”
“Vi com clareza ainda maior o Estado que habitava. Vi até que ponto podia confiar nos meus conterrâneos como bons vizinhos e amigos; e percebi que a sua amizade era apenas para os momentos de tranquilidade; senti que eles não têm grandes intenções de proceder correctamente; descobri que, tal como os chineses e malaios, eles formam uma raça diferente da minha, por causa dos seus preconceitos e superstições; constatei que eles não arriscam a si mesmos ou a sua propriedade nos seus actos de sacrifício pela humanidade; vi que, no fim das contas, eles não são tão nobres a ponto de conseguir tratar o ladrão de forma diferente do que este os trata; e que só querem salvar as suas almas, através de acções de efeito, de algumas orações e da eventual observação dos limites particularmente estreitos e inúteis de um caminho de rectidão. É possível que esteja proferindo um julgamento duro sobre os meus vizinhos, pois acredito que a maioria deles não sabe que existe na sua cidade uma instituição tal como a cadeia.”
“Mas se ponho a minha cabeça no fogo de propósito não há apelo possível a ser feito ao fogo ou ao Criador do fogo, e sou o único culpado pelas consequências. Se eu conseguisse convencer-me de que tenho algum direito a me sentir satisfeito com os homens tal como eles são, e a tratá-los de acordo com isso e não parcialmente de acordo com as minhas exigências e expectativas de como eles e eu mesmo deveríamos ser, então, como bom muçulmano e fatalista, eu teria que me esforçar para ser feliz com as coisas como elas são e proclamar que tudo se passa segundo a vontade de Deus.
E, acima de tudo, há uma diferença entre resistir a essa força e a uma outra puramente bruta ou natural: a diferença é que posso resistir a ela com alguma efectividade. Não posso esperar mudar a natureza das pedras, das árvores e dos animais, tal como Orfeu.”
“Sei que a maioria dos homens pensa de maneira diferente de mim; mas não estou nem um pouco mais satisfeito com os homens que se dedicam profissionalmente a estudar estas questões e outras parecidas. Pelo facto de se colocarem tão integralmente dentro da instituição, os homens de Estado e os legisladores nunca conseguem encará-la nua e cruamente. Eles gostam de falar sobre mudanças na sociedade, mas não têm um ponto de apoio situado fora dela. Pode ser que haja entre eles homens de certa experiência e critério e evidentemente capazes de criar sistemas engenhosos e até úteis, pelos quais lhes devemos gratidão; mas todo o seu génio e toda a sua utilidade não ultrapassam certos limites relativamente estreitos. Eles tendem a esquecer que o mundo não é governado através de decisões e conveniências.”
“Ainda não surgiu um homem dotado de génio para legislar no nosso país. Homens assim são raros na história mundial. Oradores, políticos e homens eloquentes existem aos milhares; mas ainda estamos por ouvir a voz do orador capaz de solucionar as complexas questões do dia-a-dia. Amamos a eloquência pelos seus méritos próprios, e não pela sua capacidade de pronunciar uma verdade qualquer, nem pela possibilidade de inspirar algum heroísmo. Os nossos legisladores ainda não aprenderam a distinguir o valor relativo do livre-comércio frente à liberdade, à união e à rectidão. Eles não têm génio ou talento nem para as questões relativamente simplórias dos impostos, das finanças, do comércio e da indústria, da agricultura.”
“Será que a democracia tal como a conhecemos é o último aperfeiçoamento possível em termos de construir governos? Não será possível dar um passo a mais no sentido de reconhecer e organizar os direitos do homem? Nunca haverá um Estado realmente livre e esclarecido até que ele venha a reconhecer no indivíduo um poder maior e independente - do qual a organização política deriva o seu próprio poder e a sua própria autoridade - e até que o indivíduo venha a receber um tratamento correspondente. Fico imaginando, e com prazer, um Estado que possa enfim se dar ao luxo de ser justo com todos os homens e de tratar o indivíduo respeitosamente, como um vizinho; imagino um Estado que sequer consideraria um perigo à sua tranquilidade a existência de alguns poucos homens que vivessem à parte dele, sem nele se intrometerem nem serem por ele abrangidos, e que desempenhassem todos os deveres de vizinhos e de seres humanos. Um Estado que produzisse esta espécie de fruto, e que estivesse disposto a deixá-lo cair logo que amadurecesse, abriria caminho para um Estado ainda mais perfeito e glorioso; já fiquei a imaginar um Estado desses, mas nunca o encontrei em qualquer lugar.”

domingo, 3 de abril de 2011

Diário de Bordo

"Como a literatura, o amor e a dor, as viagens são uma bela ocasião de nos encontrarmos com nós próprios."
Marguerite Yourcenar

quarta-feira, 23 de março de 2011

Diário de Bordo

RETRATO DE MÓNICA
"Mónica é uma pessoa tão extraordinária que consegue simultaneamente: ser boa mãe de família, ser chiquíssima, ser dirigente da «Liga Internacional das Mulheres Inúteis», ajudar o marido nos negócios, fazer ginástica todas as manhãs, ser pontual, ter imensos amigos, dar muitos jantares, ir a muitos jantares, não fumar, não envelhecer, gostar de toda a gente, gostar dela, dizer bem de toda a gente, toda a gente dizer bem dela, coleccionar colheres do séc. XVII, jogar golfe, deitar-se tarde, levantar-se cedo, comer iogurte, fazer ioga, gostar de pintura abstracta, ser sócia de todas as sociedades musicais, estar sempre divertida, ser um belo exemplo de virtudes, ter muito sucesso e ser muito séria.
Tenho conhecido na vida muitas pessoas parecidas com a Mónica. Mas são só a sua caricatura. Esquecem-se sempre ou do ioga ou da pintura abstracta.
Por trás de tudo isto há um trabalho severo e sem tréguas e uma disciplina rigorosa e constante. Pode-se dizer que Mónica trabalha de sol a sol.
De facto, para conquistar todo o sucesso e todos os gloriosos bens que possui, Mónica teve que renunciar a três coisas: à poesia, ao amor e à santidade.
A poesia é oferecida a cada pessoa só uma vez e o efeito da negação é irreversível. O amor é oferecido raramente e aquele que o nega algumas vezes depois não o encontra mais. Mas a santidade é oferecida a cada pessoa de novo cada dia, e por isso aqueles que renunciam à santidade são obrigados a repetir a negação todos os dias.
Isto obriga Mónica a observar uma disciplina severa. Como se diz no circo, «qualquer distracção pode causar a morte do artista». Mónica nunca tem uma distracção. Todos os seus vestidos são bem escolhidos e todos os seus amigos são úteis. Como um instrumento de precisão, ela mede o grau de utilidade de todas as situações e de todas as pessoas. E como um cavalo bem ensinado, ela salta sem tocar os obstáculos e limpa todos os percursos. Por isso tudo lhe corre bem, até os desgostos.
Os jantares de Mónica também correm sempre muito bem. Cada lugar é um emprego de capital. A comida é óptima e na conversa toda a gente está sempre de acordo, porque Mónica nunca convida pessoas que possam ter opiniões inoportunas. Ela põe a sua inteligência ao serviço da estupidez. Ou, mais exactamente: a sua inteligência é feita da estupidez dos outros. Esta é a forma de inteligência que garante o domínio. Por isso o reino de Mónica é sólido e grande.
Ela é íntima de mandarins e de banqueiros e é também íntima de manicuras, caixeiros e cabeleireiros. Quando ela chega a um cabeleireiro ou a uma loja, fala sempre com a voz num tom mais elevado para que todos compreendam que ela chegou. E precipitam-se manicuras e caixeiros. A chegada de Mónica é, em toda a parte, sempre um sucesso. Quando ela está na praia, o próprio Sol se enerva.
O marido de Mónica é um pobre diabo que Mónica transformou num homem importantíssimo. Deste marido maçador Mónica tem tirado o máximo rendimento. Ela ajuda-o, aconselha-o, governa-o. Quando ele é nomeado administrador de mais alguma coisa, é Mónica que é nomeada. Eles não são o homem e a mulher. Não são o casamento. São, antes, dois sócios trabalhando para o triunfo da mesma firma. O contrato que os une é indissolúvel, pois o divórcio arruína as situações mundanas. O mundo dos negócios é bem-pensante.
É por isso que Mónica, tendo renunciado à santidade, se dedica com grande dinamismo a obras de caridade. Ela faz casacos de tricot para as crianças que os seus amigos condenam à fome. Às vezes, quando os casacos estão prontos, as crianças já morreram de fome. Mas a vida continua. E o sucesso de Mónica também. Ela todos os anos parece mais nova. A miséria, a humilhação, a ruína não roçam sequer a fímbria dos seus vestidos. Entre ela e os humilhados e ofendidos não há nada de comum.
E por isso Mónica está nas melhores relações com o Príncipe deste Mundo. Ela é sua partidária fiel, cantora das suas virtudes, admiradora de seus silêncios e de seus discursos. Admiradora da sua obra, que está ao serviço dela, admiradora do seu espírito, que ela serve.
Pode-se dizer que em cada edifício construído neste tempo houve sempre uma pedra trazida por Mónica.
Há vários meses que não vejo Mónica. Ultimamente contaram-me que em certa festa ela estivera muito tempo conversando com o Príncipe deste Mundo. Falavam os dois com grande intimidade. Nisto não há evidentemente, nenhum mal. Toda a gente sabe que Mónica é seriíssima toda a gente sabe que o Príncipe deste Mundo é um homem austero e casto.
Não é o desejo do amor que os une. O que os une e justamente uma vontade sem amor.
E é natural que ele mostre publicamente a sua gratidão por Mónica. Todos sabemos que ela é o seu maior apoio; mais firme fundamento do seu poder."
Contos Exemplares Sophia de Mello Breyner Andresen

Diário de Bordo

"Procuro a ternura súbita,
os olhos ou o sol por nascer
do tamanho do mundo,
o sangue que nenhuma espada viu,
o ar onde a respiração é doce,
um pássaro no bosque
com a forma de um grito de alegria.

Oh, a carícia da terra,
a juventude suspensa,
a fugidia voz da água entre o azul
do prado e de um corpo estendido.

Procuro-te: fruto ou nuvem ou música.
Chamo por ti, e o teu nome ilumina
as coisas mais simples:
o pão e a água,
a cama e a mesa,
os pequenos e dóceis animais,
onde também quero que chegue
o meu canto e a manhã de maio.

Um pássaro e um navio são a mesma coisa
quando te procuro de rosto cravado na luz.
Eu sei que há diferenças,
mas não quando se ama,
não quando apertamos contra o peito
uma flor ávida de orvalho.

Ter só dedos e dentes é muito triste:
dedos para amortalhar crianças,
dentes para roer a solidão,
enquanto o verão pinta de azul o céu
e o mar é devassado pelas estrelas.

Porém eu procuro-te.
Antes que a morte se aproxime, procuro-te.
Nas ruas, nos barcos, na cama,
com amor, com ódio, ao sol, à chuva,
de noite, de dia, triste, alegre — procuro-te."

Eugénio de Andrade